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Yasodara Córdova

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5 anos de TAB: as distopias de uns são o medo de todos

Yasodara Córdova

25/10/2019 04h00

Semana passada o TAB comemorou 5 anos, mediando um papo genial entre os blogueiros Lidia Zuin e Miguel Alcoforado (veja o vídeo completo).

O papo e o trabalho do TAB durante esses cinco anos tem abordado bastante um tema que me é muito caro: o futuro. O minidocumentário Distopia  fala de um modo muito didático sobre cenários futuros provocados pela evolução de diversos fatores, como transições, crises e medos coletivos. A perda da esperança e a previsão de cenários terríveis para o futuro acabaram virando um grande hit moderno.

As distopias são uma especulação sobre medos e expectativas que o presente gera nas pessoas. Como as sociedades modernas andam instáveis e na berlinda de perderem seus espaços democráticos, crises financeiras se avizinham e os times de futebol definitivamente não são mais os mesmos (aparentemente, à exceção do Flamengo!), os medos coletivos andam a rondar com mais força, impulsionados por um grande auto-falante: a internet. Foi por culpa da internet que séries como "Black Mirror", "O Conto da Aia" e"3%" (que é brasileira!) pegaram tração e até viraram meme, se espalhando pra além da Netflix, que nada mais é do que uma plataforma que desenvolve e entrega conteúdo baseando-se na análise dos dados dos próprios usuários.

A realidade acaba se refletindo na internet e a internet vai colaborando para, aos poucos, reconstruir a realidade. Comentários transformam mitos, que se transformam em vídeos, que rendem mais comentários, que são enviados por WhatsApp, que viram palco político, e por aí o ciclo se refaz. A internet traz novos territórios e possibilidades, que são motivo de disputa — especialmente porque na internet não tem espaço para todos brilharem do mesmo modo. Esse medo e ao mesmo tempo fascinação pelo panóptico, que foi também tema de um TAB recente, nos deixa ansiosos por saber o que vem pela frente, pois quando somos vistos, estamos disputando territórios. 

Territórios virtuais, é claro. 

Entretanto, talvez não exista um limite nos territórios. Estamos apenas há vinte anos do começo da internet, populando seu não-espaço com nossas presenças.  À medida que provamos espaços, mais espaços surgem. Vamos povoando, tomando territórios e disputando histórias e versões, assim como há séculos os humanos vêm fazendo. Mais diferenças e diversidade significam que mais tretas virão. No começo, eram só os nerds. Hoje em dia, há um debate sobre quem são os nerds ou se eles ainda existem, ou até se eram só um bando de garotos tímidos e privilegiados com grana para comprar computadores antes de todo mundo. Grupos que são hegemônicos têm que disputar espaço com o dissenso, pois a internet fragmenta os tapetinhos onde enfiamos a sujeira séculos atrás e os grupos acabam ficando no topo de modo muito efêmero. A internet vive de transições — eu arrisco dizer que a disputa hoje é a transição. Para onde vamos? 

Isso sem falar na internet das coisas, que acaba por mesclar o mundo digital com o mundo físico de uma vez. Os humanos já estão conectados, com exceções, mas nos próximos anos a tendência é que mais e mais objetos ao nosso redor se conectem. Árvores que falam umas com as outras, e com humanos, tratores que param automaticamente quando estão próximos a áreas de conservação ambiental (como os tratores que vão utilizar o módulo do projeto feito por hackers brasileiros, chamado Código da Consciência), armas que não atiram quando não estão na mão do dono, e por aí vai. O digital também vai ajudar a acabar com certos recursos, mas pode ser que no meio disso tudo surjam alternativas limpas dentro da área de biocomputação, a depender de investimentos de governos e empresas interessadas em mudar o rumo da história. 

Mas não são só governos ou empresas que podem mudar o rumo da história. A exemplo de projetos pequenos, como A Operação Serenata de Amor, que combate a "pequena" corrupção dos deputados usando inteligência artificial para analisar os gastos da câmara, ou a PerifaCon, evento nerd da periferia que trouxe pro mundo dos comics outras vozes, e foi todo levantado na base da colaboração. A internet também é ferramenta para a construção de utopias, as utopias do agora. 

Sugiro que a gente pense pra onde quer ir quando posta na internet (não só postar, mas interagir em geral). Não qual rua, mas qual futuro vamos construir usando a internet. Seria um futuro onde todos têm direito de se expressar, independentemente de raça, gênero ou linguagem? Seria um futuro seco e árido, povoado por imagens de cidades cinzas, poluídas, onde trabalhamos por comida e água limpa? Vivemos no limite de entrar em colapso, porém todos temos iPhones recondicionados…

Ou seria um futuro onde temos tempo para ler, namorar, brincar com filhos, com boas escolas e saúde acessível? No fundo, todos sabemos tolerar e conversar com quem pensa diferente, ainda que de modo anônimo. Um exemplo? No meu último post, 49 pessoas comentaram sem se agredir (pode conferir). Se 49 pessoas podem, 203 milhões podem também. A construção de espaços de conversa é responsabilidade de todo usuário. Do mesmo modo que a distopia faz notícia, a diversidade come pelas beiradas, como mostram várias reportagens do TAB. Uma delas mostra como a cultura negra e da periferia cresce, tanto no espaço da internet quanto na rua (como falei, a gente se constrói), enquanto o ativismo ambiental de grupos como o Extinction Rebellion ou atitudes de pessoas como Chelsea Manning, Reality Winner ou Alexandra Elbakyan materializam os  personagens que acabam por salvar o mundo nas distopias mais famosas. 

O tempo de 2019 é interessante. 

Esse tempo pode até não ficar na história, porque a internet é uma ferramenta da impermanência e narrativas esquecidas que vão acabar eventualmente se perdendo em servidores obsoletos, mas com certeza a internet vai continuar alterando o curso da história rápido demais pra que possamos acompanhar. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Yasodara Córdova é desenhista industrial formada pela UnB (Universidade de Brasília). Está hoje em Harvard, na Digital Kennedy School, onde pesquisa governo, internet, inovacão e sociedade. Yaso é uma das mais antigas fundadoras de um hackerspace no Brasil (Calango Hackerspace) e desenvolvedora de software autodidata. Ela também já foi web especialist do W3C e consultora técnica da ONU (Organização das Nações Unidas), entre outras atividades.

Sobre o blog

Este blog é sobre internet, políticas públicas e governo.

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