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Ei, geracão Z: qual será seu emprego daqui 10 anos?

Yasodara Córdova

26/07/2020 04h00

O jovem que hoje está fazendo Enem já percebeu que o futuro que o espera não será o mesmo dos seus pais, ou até mesmo dos irmãos mais velhos. O pessoal da chamada geração Z (nascidos a partir de 1995 até 2012), já vem acelerado pelo ritmo da tecnologia, que se aprofundou no ano de 2020 por causa da pandemia, que está obrigando as pessoas a se conectarem ou a ficarem de fora de tudo.

Definitivamente, as profissões não se parecerão com as de hoje. Claro que se a desigualdade no país não for consertada, o Brasil, em 10 anos, vai continuar convivendo com a extrema riqueza de poucos e a pobreza de muitos — e não sumirão profissões que dependem da manutenção da cultura atrasada que veio com o colonialismo, como a de empregada doméstica. A novidade é que a tecnologia tende a modificar a pirâmide um pouco, e profissões como médicos e advogados, por exemplo, não farão mais sentido. Enquanto isso, outras profissões surgirão, e é disso que vamos falar neste texto. 

Leia também:

 

Aqui vai uma lista dos empregos de um futuro que já começou a ser desenhado:

  1. Treinadores de inteligências artificiais para segurança em locais públicos

Já existe a profissão das pessoas que assistem a vídeos e lêem conteúdos o dia todo em plataformas como Facebook e Youtube. Noutro dia, inclusive, o Facebook foi condenado a pagar mais de 50 milhões de dólares num acordo com a justiça do trabalho norte-americana porque os moderadores de linha do tempo da rede desenvolveram transtornos mentais, após serem expostos aos conteúdos do Facebook de modo intermitente, e isso foi considerado consequência do trabalho.

(Não é a toa que Dona Helena foi morar numa cisterna.)

Pois bem, em um futuro próximo vamos precisar de humanos para assistir a vários vídeos de pessoas em locais públicos para ensinar IAs a identificar comportamento suspeito.    

Infelizmente, no ritmo em que o Brasil importa câmeras e tecnologia de segurança, não será algo que renderá grandes salários e lucros, mas com certeza vai ofertar oportunidades, porque as atividades do brasileiro serão monitoradas em áreas públicas, como estações de ônibus e ferroviárias, aeroportos, bancos, shoppings, escolas e faculdades, estacionamentos, estradas e o que mais tiver espaço para câmera. Os guardas habituais serão substituídos por câmeras de segurança, e quem vai identificar comportamento suspeito serão os computadores treinados por pessoas. Essa pessoa pode ser você.

Imagem de um guarda-banana, do desenho animado "Hora da aventura"

Imagem de um guarda-banana, do desenho animado "Hora da aventura"

2. Mestre de obras tecnológicas para arenas desportivas

O crescimento do esporte ganha um empurrão da tecnologia. Com milhões de pessoas assistindo a jogos online, as arenas cada vez mais contarão com hardware e software para fazer a interação entre os usuários e máquinas durante competições. Eventos internacionais cada vez mais contarão com a tecnologia para oferecer a melhor experiência aos espectadores, enquanto a indústria do turismo esportivo tende a morrer, mesmo que exista vacina para Covid-19, por causa da devastação de florestas e aquecimento global

Por causa disso, novas arenas de esportes deverão surgir, e os espaços das cadeiras serão substituídos por equipamentos. Os profissionais que vão trabalhar nesses espaços deverão ser capazes de entender de design de interação, engenharia, arquitetura, além de gerenciar outras funções operacionais mais especializadas, tais como a instalação de quilômetros de cabos especiais; erguer estruturas imersivas para jogos em gaiolas; instalação de sistemas elétricos de iluminação, projetar telas biométricas de realidade aumentada, ou realidade virtual, incluindo feedback háptico (aquele que vibra quando é tocado); e enormes telas de alta definição de última geração com vários recursos novos, incluindo "expandir" ou "contrair", dependendo do tamanho da multidão, cultivando a intimidade da galera da torcida. É o mestre de obras digitalmente bombado, já que vai ter que ser capaz inclusive de operar robôs construtores. 

3. Investigador/operador de drones

O Ibama já conta, em seus quadros, com operadores de drones, assim como o ICMBio e outros fiscalizadores de desmatamento. No estado de São Paulo existe até uma lei que regulamenta o uso de imagens ambientais como prova contra criminosos ambientais — logo, esse tipo de piloto de drone também é uma espécie de detetive, que vai sobrevoar áreas de difícil acesso para pegar no flagra os garimpeiros, criadores de gado e demais desmatadores que praticam crimes ambientais não só na Amazônia, mas em outros biomas brasileiros, como o Cerrado.

Esses profissionais também serão extremamente requisitados em parques nacionais e reservas, tanto privados como públicos, já que podem fotografar com tanta precisão que podem até identificar o código de barras na orelha dos bois dos invasores. Vai ser mais difícil mentir sobre dados de desmatamento — tem gente que não vai curtir. Outro uso para os drones e o meio ambiente é a semeadura de árvores nativas através de bombas de sementes em áreas de difícil acesso para reflorestamento. Várias empresas e ONGs já prestam o serviço mundialmente, e o Brasil tem potencial para desenvolver vários projetos piloto, especialmente entre populações indígenas, que conhecem muito bem as áreas de floresta. 

Imagem de campanha da Witness, que treina indígenas para vigiar crimes na floresta

Imagem de campanha da Witness, que fornece equipamentos e treinamento para indígenas que queiram vigiar a floresta contra criminosos ambientais

5. Auditor de algoritmos

Agora que virou moda automatizar tudo, vários algoritmos vão acabar aprendendo só coisa errada com os humanos. Pra garantir que esses erros sejam detectados antes que algo muito ruim aconteça, novas instituições deverão precisar de profissionais que sejam capazes de analisar os resultados de processos que utilizam algoritmos e detectar padrões que vão contra o uso ético da tecnologia.

Essa galera vai precisar entender muito de padrões em dados, e ser capaz de reproduzir processos para comprovar o viés das máquinas para enviar provas, nos casos de processos judiciais. Os profissionais serão quase como peritos em resultados de algoritmos, para conferir por exemplo se sua pontuação de crédito não está te dando nota baixa por ser mulher, por exemplo. Acontece. Também são esses os funcionários que vão atuar junto aos reguladores de IAs no Brasil, ou seja: trabalho até dizer chega.

Cathy O'Neil

Cathy O'Neil, autora do livro "Weapons of Math Destruction", dona da ORCAA, pioneira na auditoria de algoritmos

6. Supervisor de bots

Por mais que a gente não queira aceitar, os robôs já estão entre nós. Em breve, trabalharemos lado a lado com eles. Assim como convivemos com essas figuras no Twitter, passaremos a aceitar a presença de robôs não só para consulta, como Siri e Alexa, mas também na indústria e demais locais onde circulamos. O diagnóstico de doenças será feito por input de dados, e robôs passarão a ter um papel cada vez mais importante na medicina preventiva, acompanhando a saúde das pessoas no dia-a-dia — alguns médicos acabarão sendo substituídos por duplas de robôs e enfermeiras trabalhando juntos. Os robôs podem cometer erros, assim como algoritmos. Para áreas críticas como a medicina, é importante que um humano esteja conferindo o resultado dos robôs para que as máquinas não acabem causando acidentes. Então, bots serão acompanhados por humanos em várias áreas. O supervisor de bots vai ao campo, à indústria e ao setor de serviços — cuidar de fazendas de robôs ou só de um ou dois, dependendo do setor.

7. Curadores de personalidade online

Essa profissão já até existe, mas ainda falta difundir pra geral.

Muitas celebridades se aconselham com o pessoal que se auto-intitula "consultor em redes sociais" ou até "personal brand coach", entre outras agringalhações. Tais profissionais vão ser importantes na gestão reputacional das pessoas, e terão de entender muito de técnicas de "ofuscação da informação", ou o "mascaramento de dados", que consiste em povoar um banco de dados com informações nada-a-ver para confundir os resultados de uma busca. Na prática, o que se faz é identificar a informação sensível na internet e publicar vários outros conteúdos com as mesmas palavras-chave, planejando aumentar (ou aumentando artificialmente) os acessos ao conteúdo novo para que o conteúdo sensível vá para os últimos lugares em uma busca — para que o povo esqueça. Técnica muito utilizada por políticos, mas também tende a aumentar, até porque ninguém quer ter o nome no JusBrasil. 

8. Consultor em tecnologias verdes

Assim como hoje em dia temos contador, ou consultor para investimentos, no futuro vamos precisar de consultoras que nos ajudem a escolher o que vamos comprar e como iremos nos locomover. Com o desastre do aquecimento global que está por vir, a tendência é que o uso de tecnologias prejudiciais ao meio ambiente seja pesadamente taxado, e em alguns lugares até proibido. Na hora de escolher eletrodomésticos, compania elétrica ou até roupas, pessoas vão precisar de conselhos para não acabar pagando mais impostos ou taxas. Esse tipo de profissional vai precisar ter um conhecimento muito bom não só da legislação e dos impostos, mas também de algoritmos e softwares para fazer a projeção da pegada de carbono de cada aquisição das famílias. Desde a decisão de ter ou não filhos até o apartamento, cada um vai ter que decidir levando em conta a contribuição para a poluição do mundo e o agravamento do aquecimento global. Inclusive, é possível que certas atividades e profissões sejam taxadas por serem mais prejudiciais ao meio ambiente. Logo, o pessoal vai precisar de ajuda para decidir como navegar nesse sistema. 

9. Monitor de fraudes com identidade

Taí outro ramo que já existe, mas o serviço ainda é só pra ricos. Qualquer um que tenha um número de CPF e um nome cadastrado em uma farmácia pode ter uma conta aberta por criminosos com dados totalmente falsos, manipulados digitalmente, e sequer ficar sabendo — ou ficar sabendo apenas quando o golpe for daquele tipo quase irreversível. Em países onde não existe preocupação com a segurança dos dados dos cidadãos, em um futuro próximo vai ser comum você pagar para empresas monitorarem seus dados e verificarem cada compra gigante feita, ou te avisarem caso seu rosto apareça, por exemplo, em um site pornô. Dentro desse contexto, esses serviços poderão ter conexão com escritórios de advocacia especializados em tratar certos casos para que as empresas possam imediatamente tirar tais conteúdos do ar para. Deep fakes (imitações perfeitas das pessoas, geralmente em vídeo) já são realidade e casos desse tipo tendem a se tornar muito comuns, à medida que a galera povoa a internet. 

10. Tutor virtual para adolescentes

A criançada está online e parece que vai ficar ainda mais intenso o uso das redes por crianças. Mães e pais, no entanto, não têm tempo para ficar o tempo todo acompanhando o que seus filhos fazem online. Além disso, a realidade é que muitos pais perderam a confiança das crianças e adolescentes por serem reacionários conservadores, ou por acreditarem em fake news, e portanto precisarão contratar serviços para que as crianças sejam tutoradas nos ambientes online. O que já vem acontecendo é que crianças e adolescentes, cujos pais se acham espertos, já inventaram várias técnicas para burlar ferramentas de cotrole parental. Quando isso acontece, a criançada fica exposta e sem ter a quem pedir ajuda — caso a ser resolvido pelos tutores virtuais. Tais profissionais terão que ter experiência e formação na área de humanas (veja bem), de preferência pedagogia e psicologia, uma vez que a lógica é a mesma da dos professores. Tutores ajudam a família na utilização dos sistemas de ensino online como formatar documentos, utilizar o canvas etc — coisas que muitas vezes as mães não sabem. Requisito fundamental: paciência, claro. 

A lista não acaba

Esta lista não é exaustiva. Não tem como saber quantas outras profissões surgirão na pós-pandemia e com o agravamento do aquecimento global.

À medida que a pandemia expõe e acelera a mudança, novas profissões são criadas como consequência da tecnologia — de coisas que a tecnologia vai fazer melhor e de problemas com que a inteligência artificial não pode lidar. Problemas que a tecnologia não vai resolver devem continuar a ser resolvidos por humanos; é aí que entra a valorização, por exemplo, das pessoas que fazem serviços como coleta e separação de lixo, cuidado com idosos e crianças pequenas, enfermeiras e afins.

Num mundo pós-pandemia, teremos que repensar todos os modelos de proteção aos profissionais pra que não vire tudo um Deus-dará. Recomendo assistir ao TED Talk da antropóloga e pesquisadora de Harvard Mary L. Gray, autora do livro "Ghost Work" (ou "Trabalho-Fantasma"), que descreve profissões que ninguém vê e que tendem a fazer o trabalho que máquinas não conseguem fazer ainda. Em seu TED ela explica porque esse tipo de trabalhador precisa de proteção. O professor da Usininos, Rafael Grohmann, criador do laboratório DigiLabour, fala nesse podcast sobre vários aspectos do trabalho online pós-pandemia, inclusive sobre o direito à conexão, que agora é requisito para que a pessoa seja contratada em muitas áreas, sob pena de não conseguir trabalhar. 

O recado é que estamos em uma encruzilhada. A partir de agora, podemos diminuir a desigualdade no Brasil e repensar o modelo de distribuição de riquezas, taxar grandes fortunas, assim como cobrar as multas de quem comete crime ambiental e taxar também produção agrícola. Poderemos formar mais jovens capazes de reinventar o cenário e criar novos empregos, mas também jovens capazes de repensar a proteção necessária a essas novas categorias de trabalho. 

 

Sobre a autora

Yasodara Córdova é desenhista industrial formada pela UnB (Universidade de Brasília). Está hoje em Harvard, na Digital Kennedy School, onde pesquisa governo, internet, inovacão e sociedade. Yaso é uma das mais antigas fundadoras de um hackerspace no Brasil (Calango Hackerspace) e desenvolvedora de software autodidata. Ela também já foi web especialist do W3C e consultora técnica da ONU (Organização das Nações Unidas), entre outras atividades.

Sobre o blog

Este blog é sobre internet, políticas públicas e governo.