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Como a tecnologia pode ajudar governos a virarem ditaduras?

Yasodara Córdova

18/01/2020 04h00

Governos autoritários são uma praga que se espalha de tempos em tempos, mais ou menos como gafanhotos: destroem tudo e deixam a terra arrasada. No entanto, diferentemente dos insetos que são um fenômeno da natureza, a submissão completa da sociedade a uma parcela pequena de indivíduos que se acha superior é evitável, e a tecnologia tem um importante papel nisso tudo, porque pode ser utilizada a favor ou contra governos totalitários. 

O governo de Adolf Hitler, por exemplo, baseado na ideologia de extema-direita que chamamos nazismo (que se baseia no antissemitismo, anticomunismo e nacionalismo) fez uso da tecnologia para organizar e selecionar as pessoas que iriam ser assassinadas em seus campos de concentração. Edwin Black, em seu livro "IBM e o Holocausto: a aliança estratégica entre a Alemanha nazista e a expansão da corporação mais poderosa da América", conta como a IBM enriqueceu prestando serviços de "data science" para que os nazistas pudessem coletar dados, separar os judeus e outros grupos minoritários em guetos para depois exterminar essas populações. A IBM produzia as listas com máquinas de cartão perfurado, chamadas "alfabetizadoras", que registravam as informações sobre as pessoas de modo a atribuir-lhes uma identidade única, que era então tatuada. Sim, a tatuagem dos judeus em campos de concentração era um número único correspondente ao cartão com as informações pessoais. 

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Imagem que mostra um cartão perfurado

(Imagem de cartão perfurado. Fonte: Wikipedia Commons)

Corta para o período atual, e vemos denúncias de que a IBM de novo esteve enrolada com o governo totalitário de Duterte, o presidente das Filipinas.

Duterte lidera uma guerra às drogas sangrenta que já matou inocentes, inclusive padres e outros inimigos políticos do presidente, e provocou sérias violações aos direitos humanos no país. A IBM é acusada de construir e treinar funcionários em tecnologias de coleta e processamento de dados com objetivos de vigilância, com a desculpa de detectar rostos de criminosos e prevenir crimes. Assim que a IBM saiu de cena, encerrando o contrato, empresas chinesas e de outros países se alistaram para continuar na força-tarefa tecnológica de criar infra-estrutura para vigiar as pessoas, sempre com a desculpa da garantia da ordem e da segurança. 

A Bloomberg reportou, em 2017, que o Facebook seria uma arma nas mãos de Duterte, mas com um toque de modernização e marketing: antes das eleições, o presidente utilizou o Facebook para fazer transmissões ao vivo exclusivas, e aprendeu com o próprio Facebook como fazer para se tornar o líder nas conversas dentro da plataforma.

Em pouco tempo era o assunto mais falado na rede utlizada massivamente pelos filipinos. Duterte também inugurou a prática de proibir a imprensa de entrar em seus eventos e fazer lives controladas, feitas pela sua própria equipe (como Bolsonaro). O governo de Duterte recentemente anunciou parceria com o Facebook para aumentar o acesso à internet no país, como parte de seus esforços para colocar cabos submarinos em todo o mundo. O Facebook vai financiar os links subaquáticos para as Filipinas e fornecerá uma quantidade definida de largura de banda ao governo. Com o controle da internet, o Facebook pode ofertar aplicativos exclusivos e obter fidelidade de milhões de pessoas. Nada melhor para os negócios da empresa, nada pior para o mercado local, sem chance para competidores, sem escolha para o consumidor, além de permitir o fortalecimento de líderes totalitários. 

Lembrando que o Facebook também está testando um drone movido a energia solar que enviará internet para a África subsaariana e tem uma equipe de engenheiros trabalhando em um implante cerebral para permitir que os usuários digitem com suas mentes. Saem de cena as empresas de data science e entram as empresas de mídias sociais, porque elas são coletoras de dados naturalmente. Estruturam e separam os cidadãos de acordo com modelos estabelecidos com objetivos muito simples, facilitando a venda e troca de dados entre empresas e governos. Para governos totalitários, quanto mais informações se possa processar, de modo mais rápido e cuja coleta seja espontânea, melhor, pois podem manter os inimigos calados e vigiá-los de perto. 

A Venezuela também aderiu à vigilância em massa e pediu ajuda à chinesa ZTE para produzir um data base gigante sobre todo mundo que usa o cartão do cidadão, um cartão que é como o cartão do cidadão, mas também dá o direito a benefícios do governo para quem é mais necessitado, do tipo auxílio-alimentação ou produtos de saúde. Com esses dados, o governo pode monitorar seus cidadãos e cortar os benefícios de seus inimigos políticos. Aparentemente a tecnologia para a coleta de dados é a de que os ditadores mais gostam, junto com a propaganda de massa. 

Se fosse vivo, Goebbels, o agente de propaganda ideológica  da ditadura nazista que recentemente inspirou um Secretário de Cultura nomeado pelo Bolsonaro (mas já demitido), com certeza planejaria lives exclusivas no Facebook, com bastante data science, separando muito bem quem apoia ou não o governo. Goebbels também seria chegado numa fake news, pois se atribui a ele a frase: "uma mentira repetida o suficiente se tornará verdade". A tática dele era espalhar as mentiras e a propaganda de governo de modo controlado, sem permitir que a imprensa o criticasse, de modo que com o tempo a maioria das pessoas não levantasse dúvidas. 

Yuval Harari, pesquisador, professor e autor de "Sapiens: Uma breve história da humanidade", argumenta em seu artigo para a revista The Atlantic que a tecnologia parece favorecer ditaduras, especialmente a inteligência artificial, porque depende de uma enorme concentração de dados controlados por uma mesma entidade. Faz sentido e nos deixa com uma questão: como prevenir que o inseto do totalitarismo seja mais poderoso do que a democracia com o uso da tecnologia? 

É preciso equilibrar a balança de poderes e impor limites ao acesso dos dados. Além de educação, claro. A transparência é uma das premissas democráticas que eu acho mais importantes, por exemplo. Com a total abertura das agendas, dados e ganhos de políticos (e de suas famílias) na internet, o povo tende a poder controlar com quem, porque e como os representantes eleitos estão propondo leis e votando. Também é fácil verificar como estão gastando e com quem — se entregam contratos milionários para primos ou até para empresas próprias, fenômeno comum no Brasil. 

Outra premissa, decorrente da transparência, é a participação. O ideal seria que os representantes tivessem seus aplicativos abertos, bem como os planos de governo, e que as pessoas colaborassem na elaboração de leis e pudessem votar nos gastos escolhidos pelos seus representantes. A descentralização, uma condicão para a participação, pode ser ativada com o uso de tecnologias como o blockchain, por exemplo. 

Uma outra dimensão é a questão da própria tecnologia: as empressas precisam parar de vender vigilância para governos totalitários. Como vimos acima, a humanidade tem casos onde empresas não viam o menor problema em ajudar ditaduras ou governos totalitários a ficarem mais fortes. Logo, o mercado é fator importante em garantir que governos não centralizem informações, ou utilizem suas tecnologias para perseguir minorias ou gente da oposição. 

A liberdade é uma das coisas mais interessantes de se nascer humano. Nenhuma ditadura ou ideologia deveria ser considerada razoável ao promover a censura e a perseguição (ainda que seja só virtual) de inimigos políticos. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Yasodara Córdova é desenhista industrial formada pela UnB (Universidade de Brasília). Está hoje em Harvard, na Digital Kennedy School, onde pesquisa governo, internet, inovacão e sociedade. Yaso é uma das mais antigas fundadoras de um hackerspace no Brasil (Calango Hackerspace) e desenvolvedora de software autodidata. Ela também já foi web especialist do W3C e consultora técnica da ONU (Organização das Nações Unidas), entre outras atividades.

Sobre o blog

Este blog é sobre internet, políticas públicas e governo.

Yasodara Cordova