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Yasodara Córdova

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Libra, a tentativa blockchain do Facebook para substituir bancos

Yasodara Córdova

11/07/2019 13h10

Não é fácil a vida pra quem não tem conta no banco. A família que não conta com um banco para guardar suas economias não tem como pegar empréstimo, pagar coisas com o cartão ou até mesmo receber transferências de dinheiro de um lugar para outro. É uma limitação que muitas entidades e pesquisadores tentam resolver, buscando um jeito de aumentar o acesso das pessoas aos serviços bancários.

Não é fácil também a vida pra quem tem conta no banco, mas não ganha o suficiente para chegar ao final do mês sem entrar no cheque especial. Especialmente em países como o Brasil, onde os juros do cheque especial e do cartão de crédito são praticamente os mais altos do mundo, o cidadão que ganha menos do que precisa todo mês pra se manter vai se dar mal se tiver conta no banco, de um jeito ou de outro. Ou entra no cheque especial e aí entra no ciclo da dívida que só aumenta, ou fica no vermelho e o banco vai cobrar taxa sobre taxa pelo módico empréstimo. Às vezes, por causa de menos de 10 reais, a taxa para cobrir o vermelho pode ser maior do que R$ 35. A pessoa pode ficar sem crédito na praça por anos. E, todos sabemos, nome na Serasa pode significar a perda de várias oportunidades – de linhas de crédito para comprar um freezer em 20 vezes nas Casas Bahia para fazer picolés e vender na rua, até o atraso na mensalidade da faculdade, resultando no famoso "tive que trancar a faculdade".

Em muitos países em desenvolvimento já existem serviços de credit scoring, em que as pessoas são avaliadas pelo seu comportamento financeiro. No Brasil temos o Serasa Score, produto da americana Xperian que classifica pessoas em categorias que determinam inclusive o quanto de juros o mercado vai cobrar daquela pessoa. Quanto pior o score, é maior risco de não pagar a dívida e os juros serão mais altos.

No Brasil, a aprovacão do cadastro positivo veio junto com a formação da Quod (Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco e Santander Br), um bureau de crédito privado, cujo financiamento pelo BNDES chegou a ser cogitado, para fazer concorrência à Serasa e outras empresas que realizam o mesmo serviço. Os bancos perceberam a oportunidade de utilizar os dados de seus clientes para abrir bureaus de crédito, navegando na onda do open banking, recém regulado pelo Banco Central do Brasil. O "open banking" (literalmente "banco aberto") é um conceito que prevê que bancos e outras instituições utilizem os dados das pessoas ou compartilhem, como já o faz o Banco do Brasil. Assim, as empresas não precisam fazer "screen scraping" dos dados, mas trocam por APIs e outros meios técnicos – tudo com prévio consentimento do usuário. Basta clicar no botão de "EU ACEITO". O desenvolvimento de negócios baseados na análise desses dados é quase… natural.

Mas e aí, o que isso tudo tem a ver com o Facebook?

Bem, 61 milhões de brasileiros possuem dívida. Não tá fácil. Esses brasileiros querem transferir seu dinheiro pra lá e pra cá, às vezes até entre estados ou países, mas não dá – porque os bancos vão comer boa parte dos ganhos que essas pessoas fazem diariamente no mercado informal. Com a aceleração informal que vem com o desemprego, pessoas mal fazem dinheiro para terminar a semana e não conseguem bancar juros em banco ou taxas de transferência. São cabeleireiras, faxineiras, carpinteiras, professores particulares, costureiras, cozinheiras, mecânicas de automóvel e outras mil profissionais que recebem em dinheiro e não podem transferir para quem está longe ou vender/gastar na internet – a não ser com boleto, geralmente mais caro e exclusivo para alguns países. Isso significa que essas pessoas estão perdendo oportunidades de ter uma vida mais fácil e também que perdem dinheiro.

Bem, se tem algo que é onipresente hoje na América Latina são os aplicativos de mensagem do Facebook. Messenger, mensagens diretas no Instagram e Whatsapp também servem para negociar de tudo, desde horário de manicure até aula de violão. O Whatsapp é do Facebook, que fez acordo com operadoras e garantiu que as pessoas não precisam gastar sua internet para usá-lo, tornando-se assim o app mais utilizado em vários países para tudo. Não só para bater papo, mas também para trocar serviços. Grandes bancos, como o Banco do Brasil, perceberam isso e começam a explorar oportunidades, como liberar o saque via Whatsapp – sem cartão.

O Facebook também percebeu todas as oportunidades, tanto de ser o novo fiduciário dos dados financeiros quanto o novo bureau de crédito, tudo isso junto com a nova plataforma para transferências em países em desenvolvimento, e criou a Libra. Uma criptomoeda que vai ser bancada por várias entidades, centralizada, largamente utilizada em países em desenvolvimento – onde os bancos são simplesmente inviáveis para certas camadas da população – de fácil circulação, com suporte de um aplicativo que já está presente de maneira ostensiva em mais da metade dos celulares dos cidadãos.

Os bancos, na verdade, não perdem, porque já não têm interesse em melhorar a vida da população mais pobre. Ao contrário: ganham pois vão poder fazer parcerias com o Facebook em torno do uso dos dados das plataformas da empresa em troca de ceder uma fatia do monopólio que mantêm nos países em desenvolvimento. A Libra do Facebook tende também, aos poucos, a substituir e destruir as moedas sociais, que são de circulação restrita pela própria regulação de países. Além de ganhar como novo bureau de crédito, inclusive para pequenas empresas ou negócios informais, o Facebook pode atuar como credor, emprestando pequenas quantias a juros menores, já que vai saber exatamente qual é o potencial do cidadão de pagar o empréstimo – pois terá acesso às transações informais feitas através do Whatsapp, podendo assim estabelecer um perfil de pagador para cada pessoa (até as que não têm conta em bancos).

Esse mercado pode ser altamente lucrativo. Como mostra o mercado de anúncios, ganhar por volume de transações (cliques) é uma grande ideia. Também pode criar distorções não previstas, como no caso da circulação de notícias falsas e pseudociência, mas que sobretudo geram vantagens para quem espalha e para o próprio Facebook.

Isso tudo é bom para empresa, ruim para o Brasil. A primeira distorção da estratégia da empresa no país foi burlar a neutralidade da rede e se tornar o único fornecedor de aplicativos com acesso privilegiado em países em desenvolvimento – pela injusta competição. A segunda distorção ética na estratégia da empresa seria introduzir um sistema de ranqueamento social baseado em dados de redes sociais em países onde não existe culturalmente a ideia do social credit score, mas onde a segregação social pela desigualdade econômica já é cruel o suficiente, impedindo gerações e gerações de melhorar de vida. A última distorção ética dessa estratégia da empresa é a proposta de aplicar em países em desenvolvimento uma tecnologia desconhecida, não esgotada sequer teoricamente, via uma plataforma que tem responsabilidades demais para falhar.

Os bancos têm se mostrado inúteis na sua função social de distribuição de renda e prosperidade, aprofundando as desigualdades às custas das camadas mais pobres da população, é verdade. Mas o Facebook não é a bala de prata que vai resolver a situação.

Erramos: A versão inicial desse texto informou erroneamente que o BNDES havia financiado o Quod. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Yasodara Córdova é desenhista industrial formada pela UnB (Universidade de Brasília). Está hoje em Harvard, na Digital Kennedy School, onde pesquisa governo, internet, inovacão e sociedade. Yaso é uma das mais antigas fundadoras de um hackerspace no Brasil (Calango Hackerspace) e desenvolvedora de software autodidata. Ela também já foi web especialist do W3C e consultora técnica da ONU (Organização das Nações Unidas), entre outras atividades.

Sobre o blog

Este blog é sobre internet, políticas públicas e governo.