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Yasodara Córdova

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Histórico

Monopólios de dados: os cavaleiros do apocalipse da internet

Yasodara Córdova

2019-03-20T19:10:39

19/03/2019 10h39

Pensei bastante no meu texto de estréia aqui no UOL TAB. Queria abordar temas mais históricos, coisa de mais de cinco anos, mas o fato é que a internet não para. Ela está sempre em evolução porque é feita de pessoas, que mudam constantemente, mudando o ecossistema, e cinco anos parecem coisa de meio século. Especialmente para as plataformas. Plataformas têm multifunções e permitem que outras empresas explorem suas funcionalidades, como o Facebook, por exemplo. As plataformas são um ponto importante de coleta de dados, especialmente porque aperfeiçoam a interface com o usuário e melhoram os serviços pela análise de ações destes quando interagem com a tela. Plataformas dependem de escala. É como uma loja de atacados: o lucro está na quantidade vendida. Se lucrarem um centavo com cada transação, para ganharem um milhão em um dia, precisam de aproximadamente cem milhões de transações realizadas. Por causa disso, as plataformas de internet são gigantes em busca de dados. A Amazon tem mais de uma plataforma. O Google também. O Facebook, idem.

Por causa dessa mecânica, não causa espanto o manifesto recente do Facebook, somado ao anúncio de que a empresa vai reunir seus quatro produtos principais – Instagram, Facebook, Messenger e Whatsapp – em uma plataforma só. Esse acontecimento vai ser um dos mais importantes da internet, e marca a entrada definitiva do mundo ocidental na guerra por todos os dados, de todo mundo. Também marca definitivamente a liderança solitária do Facebook na competição por usuários de redes sociais no Sul Global – Brasil especialmente -, e isso tem consequências péssimas para o ecossistema da Web, para os consumidores, e para a inovação em si.

Em seu manifesto, o Facebook diz que pretende ser mais focado em privacidade e que estará presente de uma maneira mais íntima na vida das pessoas. Podemos esperar que mensagens no Messenger, mensagens diretas no Instagram e no Face aos poucos sejam mescladas com a estrutura do WhatsApp. Do mesmo modo, o stories no WhatsApp já indica a tendência do Facebook de verticalizar ainda mais, espalhar mais anúncios, e apertar o cerco contra inovações vindas de fora. Com a capacidade financeira que possui, o Facebook é capaz de comprar pequenas startups antes que cheguem ao seu ponto de equilíbrio, matando a concorrência antes mesmo dela existir – como já fez anteriormente com Instagram e WhatsApp, por exemplo. Quando não incorpora ameaças, o Facebook simplesmente copia, como tem feito sistematicamente com o Snapchat, que agoniza para se manter no páreo.

O Facebook, na verdade, quer concorrer com as plataformas sociais chinesas. O ideal para essas plataformas é que as pessoas não precisem fechar ou deslogar da plataforma principal para realizar diferentes tipos de serviços. Banco virtual, agendamento de trabalhos temporários, namoro, pagamentos e o que mais as empresas conseguirem pensar fica em um serviço centralizado, que além de prestar todos esses serviços ainda fica com o monopólio dos dados.

Outro movimento recente de concentração de um nicho de mercado em poucas empresas, que é ruim para usuários, é a guerra de navegadores. Essa vai ficar mais fácil, concentrando mais e mais poder em poucas empresas, já que a Microsoft anunciou que vai usar o Chrome, do Google, deixando pra trás o Explorer/Edge. Menos concorrentes significa menos escolha para o consumidor e, consequentemente, menos possibilidade de novos negócios darem certo. Nessa pegada, o Brave, o Tor Browser e até o Vivaldi – navegadores com propostas diferentes, mais focados em privacidade e na autonomia do usuário na gestão dos seus dados -, terão menos chances de sucesso, especialmente porque eles não têm um buscador, como o Google, nem oferecem serviços adjacentes, o caso da Apple com o Safari.

Não por acaso ali em cima eu disse que o Google tinha várias plataformas. A mesma empresa que fabrica o navegador Chrome também fabrica os algoritmos da busca do Google e também é responsável pelo YouTube e seus serviços (como streaming etc), além de serviços para nicho, como o Google Music ou o Google Payments. A empresa está presente em 92% dos celulares no Brasil com o Android, sendo a principal empresa utilizada para serviços de e-mail no país. Isso significa que o usuário não tem escolha a não ser entregar seus dados para uma empresa só, que pode cruzar e identificar futuros usos para esses dados dentro do seu próprio ecossistema. É justamente essa possibilidade que torna a Google imbatível. Agora, se você tiver uma startup e mesmo com a desvantagem de não ter todos esses dados conseguir passar do ponto de equilíbrio, o Google sempre pode comprar sua empresa ou apenas… copiar suas idéias.

Já a Amazon, a gigante de compras, venda e distribuição americana, tem ameaçado de maneira tão incisiva a inovação e o desenvolvimento de novos negócios nos EUA e na Índia que alguns acontecimentos são interessantes: a senadora Elisabeth Warren propõe quebrar a Amazon, o Facebook e o Google em pedaços menores, visando incentivar a competição. Se as leis antitruste forem aplicadas nos EUA, é possível que um dia cheguem ao Brasil. Em termos de empresas de telecomunicações já não temos um bom exemplo, então é melhor não esperar muito. Na Índia os reguladores fizeram uma proposta para evitar que a Amazon copie as marcas de produtores locais e venda mais barato, prática predatória que pode encontrar um prato cheio no Brasil, já que essa companhia anunciou um aumento de forças no país no começo deste ano e estamos longe de ter representantes preocupados com competição no Brasil digital.

Por último, existem consequências péssimas para o usuário quando empresas se concentram. No mundo digital, a primeira delas é a concentração de informações em poucas mãos. As pessoas não controlam com quem ou qual empresa a Amazon, Google ou Facebook compartilham os seus dados pessoais. Além da ameaça de perda de privacidade e vigilância, a concentração de mercado por práticas injustas deixa os usuários dependentes de uma empresa só. Por exemplo: você não pode escolher o sistema operacional do seu aparelho se ele for um Motorola. Está tão pacificado que chamamos de "Android". Também é possível que num futuro a Amazon escolha seu plano de saúde privado e sua aposentadoria complementar, sem que você possa contestar facilmente (afinal, como você vai contestar dados?).

A perda da privacidade e da liberdade de escolha, no fim das contas, não vai compensar em termos de melhorar os serviços, tampouco irá oferecer algo mais barato. Muito pelo contrário: a Apple, que diz respeitar a privacidade dos usuários, custa muito caro para camadas mais populares da população. Privacidade e liberdade de escolha vão se tornar artigos de luxo. Mais empresas estão entrando nesse grupo, especialmente com o ecossistema quebrado de inovação do Brasil. Uber, AirBnb, Twitter e outras plataformas vão pelo mesmo caminho, pois precisam de escala para ter sucesso. O Brasil, sendo um país gigante, é um prato cheio de dados para que esses outros gigantes, tanto chineses quanto americanos, se alimentarem.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Yasodara Córdova é desenhista industrial formada pela UnB (Universidade de Brasília). Está hoje em Harvard, na Digital Kennedy School, onde pesquisa governo, internet, inovacão e sociedade. Yaso é uma das mais antigas fundadoras de um hackerspace no Brasil (Calango Hackerspace) e desenvolvedora de software autodidata. Ela também já foi web especialist do W3C e consultora técnica da ONU (Organização das Nações Unidas), entre outras atividades.

Sobre o blog

Este blog é sobre internet, políticas públicas e governo.